Ivinhema
IVINHEMA: Estudantes vivenciam saberes e ancestralidade Guarani-Kaiowá na Aldeia Panambizinho
Visita pedagógica dos alunos dos 5º anos A,B, D e E da Escola Municipal Professor Sideney Carlos Costa destacou a educação indígena, a espiritualidade, a preservação ambiental e o protagonismo feminino na transmissão de conhecimentos.
HELENA ZANCHI | COORDENADORA PEDAGóGICA E ACADêMICA DE JORNALISMO
No último dia 25 de setembro de 2026, os estudantes dos 5º anos A, B, D e E da Escola Municipal Professor Sideney Carlos Costa, de Ivinhema (MS), participaram de uma experiência de aprendizagem e valorização cultural na Aldeia Panambizinho, na região de Panambi, distrito de Dourados (MS).
A atividade, desenvolvida por meio do projeto “Panambizinho: Terra, História e Cultura Guarani-Kaiowá”, proporcionou aos alunos contato direto com a história, a educação, a espiritualidade e os conhecimentos tradicionais da comunidade. Mais do que uma visita pedagógica, foi uma oportunidade de aprender com pessoas que mantêm vivas as memórias e as tradições de seu povo.
Educação indígena: aprender também é preservar a identidade
O primeiro momento aconteceu na Escola Municipal Indígena Pa’i Chiquito Pedro, onde o grupo foi recebido pelo Cacique Anardo Concianza Jorge. Durante a conversa, ele apresentou aspectos da história e do modo de vida da comunidade, destacando a importância da educação e da língua Guarani-Kaiowá na preservação da identidade cultural.
Na recepção, integrantes da comunidade realizaram um ritual de purificação, com canto e dança, para acolher os visitantes no ambiente escolar. O momento marcou o início de uma vivência de respeito e aproximação entre as duas comunidades escolares.Durante uma conversa com os alunos, o cacique compartilhou aspectos da realidade da comunidade, destacando a importância da educação indígena, da preservação da língua materna, dos costumes e da identidade cultural. O encontro também abriu espaço para reflexões sobre o preconceito e os desafios enfrentados pelos povos indígenas na busca pelo reconhecimento e respeito aos seus direitos.
A trajetória de Anardo está relacionada à própria história da educação escolar em Panambizinho, onde a comunidade tem se mobilizado para fortalecer uma escola que, além dos conhecimentos curriculares, valorize a língua, a memória e os saberes transmitidos pelos mais velhos.
O encontro foi marcado pela atenção e curiosidade dos estudantes, que acompanharam as explicações e tiveram a oportunidade de conhecer aspectos da realidade da comunidade diretamente por meio de uma de suas lideranças.
Entre os registros desse momento, destacou-se a participação de um estudante que, com uma prancheta nas mãos, anotava as informações compartilhadas pelo cacique, demonstrando
A experiência mostrou que conhecer a cultura de outro povo exige mais do que observar suas manifestações culturais. É necessário ouvir suas histórias, reconhecer suas lutas e compreender que a diversidade também se constrói pelo diálogo e pelo respeito.
Na Casa de Reza, a força da ancestralidade
Na casa de Reza Dona Fineida demonstrou muita alegria e também ao recordar os ensinamentos de seus antepassados, eles explicaram o significado dos objetos sagrados e a importância daquele espaço para a espiritualidade e a preservação cultural da comunidade.
O casal também compartilhou conhecimentos sobre o batismo do milho branco, celebração tradicional que, conforme explicaram, estava prevista para acontecer em breve.
Os estudantes compreenderam que esse alimento possui um significado que ultrapassa a alimentação, estando relacionado à ancestralidade e às práticas espirituais do povo Guarani- Kaiowá.
A presença de Dona Fineida foi especialmente emocionante. Sua firmeza, seu orgulho e sua determinação em manter vivas as tradições revelaram a força da mulher indígena na transmissão dos conhecimentos entre gerações. Acompanhar aquele momento despertou em todos profunda admiração por uma mulher comprometida em não deixar sua cultura ser esquecida.
Yju Mirĩ e Xiru Karai: a natureza como espaço sagrado
A última etapa da visita levou os estudantes ao espaço sagrado Xiru Karai e ao córrego Yju Mirĩ, onde foram recebidos por Dona Leda, esposa de Anastácio Peralta.
Dona Leda explicou que, segundo os conhecimentos e as crenças tradicionais da comunidade, naquele local vivem os espíritos protetores do povo indígena, considerados guardiões da floresta. Também destacou que o córrego é sagrado e que um dos objetivos da comunidade é preservar a mata em sua forma mais natural possível.
Os ensinamentos permitiram aos estudantes compreender que proteger a natureza também significa preservar a espiritualidade, a memória e os conhecimentos ancestrais
Mulheres que ensinam, preservam e constroem caminhos
Um dos aspectos mais significativos da visita foi o protagonismo feminino. Na comunidade Guarani-Kaiowá, Dona Fineida e Dona Leda compartilharam conhecimentos sobre espiritualidade, ancestralidade e preservação da natureza. Na escola, a gestão feminina também teve papel importante na construção dessa experiência educativa, aproximando os estudantes de diferentes realidades culturais. Em papéis distintos, essas mulheres contribuíram para um encontro de saberes, experiências e demonstraram o importante papel das mulheres indígenas na continuidade da cultura de seu povo.
Uma aprendizagem que permanece
Para o professor Adevair Pereira dos Santos, atividades como essa ampliam as possibilidades de aprendizagem: “Como educador, acredito que proporcionar experiências como essa é permitir que nossos estudantes ampliem seus horizontes e compreendam que a aprendizagem não acontece somente diante de um quadro ou de um livro. Ela também se constrói nos encontros, nas conversas, na observação e, principalmente, na disposição de ouvir e respeitar o outro”.
A diretora Sirlei Alves Guzzi também destacou o significado da vivência: “Voltamos da Aldeia Panambizinho com a satisfação de termos vivenciado uma experiência enriquecedora, mas também com a consciência de que uma única visita não é suficiente para compreender toda a riqueza histórica, cultural e espiritual de um povo. Esse encontro representou uma oportunidade de aproximação, escuta, aprendizado e reconhecimento dos saberes Guarani-Kaiowá. Nosso compromisso agora é dar continuidade a essa experiência no ambiente escolar, por meio de produções textuais, ilustrações e momentos de reflexão que permitam aos estudantes aprofundar seus conhecimentos sobre a cultura indígena, valorizar a diversidade étnico-racial e compreender a importância do respeito e do enfrentamento ao preconceito. Afinal, uma experiência como essa ganha ainda mais significado quando os conhecimentos vivenciados se transformam em novas aprendizagens e atitudes no cotidiano escolar.”
A acolhida do cacique Anardo, os ensinamentos de Dona Fineida e seu Nivaldo e a sabedoria compartilhada por Dona Leda transformaram a visita em uma experiência extraordinária de conhecimento e valorização cultural. A visita terminou, mas os ensinamentos permanecem. E talvez essa seja uma das maiores lições da educação: aprender a conhecer para, verdadeiramente, aprender a respeitar.












